Polícia da Bahia apura maus-tratos a jumentos abatidos para a China

27 de novembro de 2018, 14:31

Abandonados à beira de uma estrada, jogados de uma ribanceira por um caminhoneiro após saírem de Pernambuco e viajarem por quatro dias rumo ao abate no sudoeste baiano.

Este foi o fim de nove jumentos que, segundo a Polícia Civil da Bahia, morreram de fome e sede após uma viagem de pé, amontoados com outros 53 animais na carroceria, sem poderem se movimentar.

O caso foi flagrado em 30 de outubro pela polícia na cidade baiana de Itororó.

Na vizinha Itapetinga, outro caso suspeito de maus-tratos ocorreu dois meses antes, com 300 animais achados mortos e outros 750 com sinais de desnutrição.

Os jumentos nordestinos são abatidos na Bahia e depois exportados para a China depois de passarem por Hong Kong e Vietnã.

A indústria chinesa extrai da pele e couro do animal uma substância usada para fazer o ejiao, remédio que promete combater o envelhecimento, aumentar a libido nas mulheres e reduzir doenças do órgão reprodutor feminino.

Nas duas situações flagradas na Bahia, a responsável seria a empresa chinesa Cuifeng Lin, segundo a Polícia Civil de Itapetinga, o Ministério Público Estadual e a Adab (Agência de Defesa Agropecuária da Bahia), órgão do governo estadual.

A multinacional compra os animais abatidos e fica responsável pela aquisição e transporte até o local de abate.

As autoridades apontam que ela transportou animais sem GTA, guias de trânsito que atestam a origem do animal e serve como comprovante sanitário, e confinou os jumentos de forma ilegal.

O frigorífico Sudoeste, para onde seriam levados animais e que tem contrato com a Cuifen Lin, respondeu que apenas recebe jumentos cujos caminhões têm a GTA.

O cenário encontrado em Itapetinga foi descrito como de horror por agentes da Adab e pela prefeitura.

Além dos cadáveres, os outros 750 bichos ainda vivos estavam sem comida ou água, a maioria debilitados, definhando, sem conseguirem ficar em pé.

Algumas fêmeas já estavam em procedimento abortivo, relata a Adab em um relatório usado pelo Ministério Público da Bahia como base para uma ação civil pública contra o confinamento.

Pelo caso de Itapetinga, a Cuifeng Lin foi multada em cerca de R$ 30 mil por maus-tratos e transporte e confinamento ilegais de jumentos. A reportagem tentou contato por telefone, sem sucesso, na filial baiana e na sede, em São Paulo. Depois do caso, os confinamentos foram proibidos na Bahia.

Em geral, os jumentos são pegos nas estradas à noite ou comprados por R$ 30 em estradas do Nordeste. A Bahia, segundo o Ministério da Agricultura, é o único estado brasileiro que tem frigoríficos autorizados a abater jumentos —são três no estado.

Estão sendo abatidos na Bahia 300 a 400 jumentos por semana. Segundo a Adab, o estado tem um plantel de 96 mil jumentos, segundo produtores, mas se estima que a quantidade de animais, incluindo os soltos, chegue a 200 mil.

No Nordeste, a projeção é de 800 mil jumentos.

Segundo o ministério, a Bahia exportou para o Vietnã 1,28 mil toneladas de carne e couro de “cavalos, asininos e muares”, a US$ 2,5 milhões (R$ 9,7 milhões), neste ano. Para Hong Kong, foram 24,4 toneladas, por US$ 36.814 (R$ 142.282,43). O destino é sempre a China.

“Esse é um ato cruel contra esses animais, eles são pegos em todos os lugares. O jumento é patrimônio cultural, tem de ir para um santuário, tem de ter respeito”, disse a coordenadora da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos Gislane Brandão.

Os chamados santuários também têm problemas. No Nordeste, havia um deles em uma fazenda em Apodi (RN), na divisa com o Ceará.

No dia 12 deste mês, porém, o local foi flagrado pela Polícia Civil potiguar e pelo Ibama (órgão federal) em situação de maus-tratos. Segundo a polícia, havia no local três cemitérios com centenas de carcaças de animais: 500 cachorros, 700 jumentos e 150 gatos.

“Ele recebe esses animais de prefeituras, mantendo os bichos doentes e alimentados com um tipo de mistura”, diz comunicado da polícia. A reportagem não localizou Nobre, que não tem advogado.

O diretor do Frigorífico Sudoeste, José Marcos Ribeiro Costa, defende o abate dos animais. “O jumento é abatido como ocorre com o gado, não tem maus-tratos.”

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