Não vá que é barril: após 11 assaltos em um mês, taxistas evitam Castelo Branco

22 de maio de 2019, 12:26

(Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

 

Segundo a Associação Geral dos Taxistas (AGT), foram 140 ocorrências de 1º de janeiro a 20 de maio em Salvador

A corrida é para Castelo Branco? Ultimamente, só essa informação já tem sido suficiente para deixar os taxistas com medo. Isso porque, dos 24 assaltos aos profissionais da categoria registrados em maio deste ano em Salvador, 11 foram no bairro. “Tenho temor de andar por lá até durante o dia. E se, por ventura, passar, só pego casal de idosos”, relata o taxista Milton Alves da Silva, 57 anos, vítima de assalto no bairro no dia 9. Ele foi roubado por duas mulheres e dois homens.

Segundo a Associação Geral dos Taxistas (AGT), só este ano já foram 140 ocorrências contra taxistas até a última segunda-feira (20) – em média, um caso por dia. Além de assaltos, a AGT também conta roubos de veículos, agressões, vandalismo e profissionais baleados. O mês campeão foi março – 43 casos. Depois de Castelo Branco, a AGT aponta Liberdade e Cidade Nova como bairros com mais assaltos.

“Já tivemos várias reuniões com o secretário da Segurança Pública e nada de solução. Ele prometeu o aumento das blitze e consequentemente abordagens aos táxis, mas o que a gente vê é isso, o aumento da violência desenfreadamente não só contra uma categoria, mas contra a sociedade”, afirma Ademilton Paim, presidente da AGT.

Em nota, a Polícia Militar informou que, desde janeiro, já abordou 44 mil táxis em blitze – só em maio, foram 6 mil abordagens. “A 47ª CIPM, responsável pelo policiamento na região, já intensificou as ações em Castelo Branco com abordagens preventivas, blitze itinerantes, inclusive com o apoio da Operação Apolo, e adotou outras estratégias de acordo com o estudo de ocorrências registradas”, diz a nota. Procurada para comentar os dados, a Polícia Civil não respondeu até o fechamento desta edição.

Para o professor Luiz Cláudio Lourenço, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Crime e Sociedade (Lassps/Ufba), a concentração dos crimes em um bairro pode ter relação com a quantidade de policiais. “Isso pode ser uma questão de oportunidade. Já sabem que o bairro está meio desqualificado em termos de policiamento e levam o taxista para lá para praticar o assalto”, aponta.

Para ele, as forças de segurança deveriam atentar para o problema e agir com inteligência: “Colocar policiais à paisana dirigindo táxis, por exemplo, para tentar identificar que grupo está agindo”, indica o pesquisador.

Para o presidente da Comissão dos Taxistas da Bahia, João Adorno, no ano passado, os bairros mais perigosos eram outros: Boca do Rio, Stiep e Costa Azul. O motivo? A concentração de invasões na região onde funcionam pontos de tráfico de drogas.

Quarteto
Na profissão há mais de 20 anos, Milton foi uma das vítimas da violência contra taxistas em Castelo Branco. No dia 9 deste mês, ele iniciou uma corrida com duas jovens em frente ao Shopping da Bahia com destino à rua principal de Castelo Branco.

Arrumadas e bem articuladas, as jovens não levantaram suspeitas. Durante a corrida, falaram sobre a situação do país, o desemprego. Uma  delas disse que fazia faculdade. Minutos depois, Milton estava sendo enforcado com uma corda e recebendo murros das jovens e de outros dois comparsas que se aproximaram do táxi no destino final, em frente à Igreja Católica.

Dos 24 casos de violência contra taxistas registrados pela AGT no mês de maio, 11 foram em Castelo Branco
(Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

“Uma sensação horrível, de impunidade. Nunca passou pela minha cabeça que aquelas jovens poderiam fazer isso”, contou ele, que registou o caso na 10ª Delegacia (Pau da Lima). Eles levaram celular e carteira da vítima.

Por conta do episódio, Milton acrescentou Castelo Branco a sua lista de locais perigosos de Salvador: “Alguns locais, só rodo durante o dia e na via principal, como Uruguai, Mata Escura, Calabetão e Colina Azul. No caso de Castelo Branco, mesmo na via principal, só pego se for um casal de velhinhos. Já fui assaltado outra vez, mas nunca tinha sido agredido”.

Para a AGT, os assaltos a taxistas em Castelo Branco estão relacionados ao “fortalecimento da criminalidade no bairro”. “A maioria das ocorrências registradas este ano contou com a participação de um grupo que mora na 1ª Etapa de Castelo Branco”, declara o presidente da AGT. Segundo ele, o quarteto que atacou o taxista Milton é responsável pela grande parte das ações.

“Os quatro são violentos e muito perigosos. São todos jovens. Todos os taxistas vítimas já prestaram queixa na 10ª Delegacia e eles continuam agindo”, afirma.

Para ele, os jovens são envolvidos com o tráfico. “Eles roubam para comprar drogas. Os taxistas já andam com as fotos deles para evitar o azar de transportá-los”, conta.

Destino final
Poucos dias antes de Milton, a vítima foi um taxista morador da Vila Canária. No dia 4, recebeu um chamado pelo Easy Táxi assim que saiu de casa. Chegando ao local, não encontrou ninguém, mas logo se aproximou um rapaz que pediu que esperasse o amigo, com uma fratura no pé.

O taxista contou que, ao se deparar com os passageiros, achou a dupla suspeita, mas não recusou a corrida.

“A situação do país está tão difícil que a gente não pode escolher, pega a primeira pessoa que aparece na frente,
infelizmente”
, disse.

A dupla seguiu a viagem calada e, chegando próximo ao destino final, pediu que ele seguisse por uma rua sem saída.

Foi então que o taxista percebeu que seria assaltado e recusou seguir em frente. Um dos “passageiros” então sacou a arma e anunciou o assalto. Eles fugiram levando R$ 50 e o celular do taxista. “Na hora, só pensei em fazer o que eles queriam. Esses caras não têm amor à própria vida, imagina a vida dos outros? Eles não têm nada a perder”, declarou o taxista, assaltado pela primeira vez em cinco anos.

Os casos de violência a taxistas em Castelo Branco não são de agora. Manoel Inocêncio Jesus Pereira, 60, já foi assaltado três vezes – todas no bairro. O caso mais recente foi em outubro do ano passado. “O rapaz era um cara simpático, bem vestido. Estava no Imbuí e pediu uma corrida para a Terceira Etapa de Castelo Branco. Quando chegamos, disse a ele que a corrida deu R$ 70. No lugar do dinheiro, ele sacou uma pistola e disse: ‘Perdeu’. Levou todo o meu dinheiro e o celular”, relatou ele.

O taxista Valdisnei Raimundo da Silva, 65, nunca foi vítima em Castelo Branco, mas conhece a fama do lugar. “De vez em quando, a gente vê um corre-corre. Quando procura saber, é um taxista que foi roubado ou teve o carro levado pelos criminosos, ou os bandidos tomaram o carro particular, ou assaltaram uma loja. A criminalidade aqui está em alta”, disse.

Avenida 29 de Março foi inaugurada em abril
(Foto: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)

Rotas de fuga
Além do quarteto apontado pela AGT como um grupo que assalta taxistas em Castelo Branco, o CORREIO apurou que existe outro fator que contribui para o aumento da violência contra a categoria no bairro. No ponto de táxi do Atakadão, na Estrada do Coqueiro Grande, os taxistas apontam o surgimento de novas rotas de fuga. A primeira é a Avenida Dois de Julho.

Inaugurada em junho de 2016, a avenida é composta por duas pistas com 7,2 quilômetros de extensão nos dois sentidos, sendo intercaladas por duas rotatórias e dois viadutos com 30 metros de extensão – entrada e saída. Dispostos sobre a avenida, eles garantem o acesso direto ao bairro de Valéria e permitem desafogar o tráfego na localidade e nas comunidades adjacentes.

“Antes, em Castelo Branco, só tinha como rota de fluxo grande de carros Águas Claras e a Avenida São Rafael. A via (Dois de Julho) trouxe muitas melhorias, aumentando o fluxo de veículos, mas também trouxe problemas. Levou o acesso de locais perigosos ao bairro, como Jaguaripe, Nova Brasília e Jardim Nova Esperança”, explica o taxista Sandro Abadias, 37 anos, de uma cooperativa de Cajazeiras.

A outra rota de fuga é a recém-inaugurada Avenida 29 de Março, que garante ligação direta entre a Orla Atlântica, a partir da Avenida Orlando Gomes, à BR-324, na altura  de Águas Claras. “A mobilidade para qualquer pessoa é importante e isso incluiu os bandidos também”, pontua o também taxista Rogério Anunciação da Glória, 45.

Para o pesquisador Luiz Cláudio Lourenço, do Lassos/Ufba, esse pode ser, sim, um dos fatores. “Como tem vias novas, estão circulando mais carros também lá. Isso pode ter chamado”, diz.

Nova modalidade
Além dos assaltos convencionais, os taxistas ainda estão sendo vítimas de uma nova modalidade: furto de celular por moticiclistas. Só neste mês de maio já foram quatro aparelhos levados pelos bandidos sem o emprego de qualquer tipo de violência, de acordo com a Associação Geral dos Taxistas (AGT).

O furto acontece assim: um motociclista diz que está precisando chamar um táxi para um parente, pede o celular do taxista para ligar para o suposto passageiro e foge levando o aparelho.

Foi o que aconteceu com Edmilson Carvalho, 42 anos. Ele estava em um ponto de táxi no Centro Administrativo (CAB) no dia 14, quando um homem numa moto disse que precisava ligar para a mãe, que fazia tratamento de hemodiálise no Hospital Roberto Santos, no Cabula.

“Ele falou que o celular tinha descarregado a bateria e me pediu para fazer uma ligação para avisar a mãe que estava indo em casa para levá-lá ao hospital. Comovido com a situação, entreguei meu aparelho. Ele foi se afastando, afastando, subiu numa moto e sumiu”, relata.

Correio

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